MB Review: Diários de uma Apotecária – Light Novel #1

“Diários de Uma Apotecária” é uma obra genuinamente cativante, que mescla fantasia histórica com mistérios envolventes e ainda entrega algumas migalhas (pelo menos nesse começo) de um romance. Com uma narrativa simples, mas fluida e consistente, com eventos que gradualmente se conectam, é a leitura perfeita para desanuviar e apreciar cada detalhe com tranquilidade.

A história se passa em Li, um país fictício inspirado na China Imperial. Essa inspiração transparece em nomes, vestimentas e costumes, no entanto, apesar de se tratar de uma fantasia histórica, não é possível determinar com precisão a época em que a obra se passa devido a presença de elementos científicos e culturais de épocas distintas. 

A estrutura do império em parte se baseia em um sistema de consortes, que convivem no “palácio interno”, uma espécie de harém cuja finalidade vai além de garantir herdeiros e também funciona como mecanismo político. Somente mulheres e eunucos são permitidos nesse local restrito do palácio imperial, que é palco de disputas e intrigas. Um ambiente insidioso que é o ponto central da trama e para onde a protagonista Maomao— uma jovem aprendiz de apotecária que vive no distrito do prazer— é levada contra a sua vontade.

Depois de ser sequestrada e vendida como serviçal para o palácio imperial, tudo o que Maomao mais quer é cumprir o seu tempo de serviço e passar despercebida, mas sua curiosidade e forte senso de justiça acabam a colocando em evidência, chamando a atenção de Jinshi—o gerente do palácio interno e dono de uma beleza lendária, sendo constantemente comparado à uma ninfa celestial—que promove Mao Mao à dama de companhia e degustadora imperial da consorte Gyokuyou, a favorita do imperador e mãe de sua única filha.

Ao entrar para o séquito de uma das quatro consortes de alto nível, mesmo que em uma posição delicada e perigosa como a de degustadora, Maomao passa a desfrutar de uma posição mais confortável dentro do palácio, mas graças a Jinshi, que constantemente solicita seu conhecimento e habilidades, ela se vê cada vez mais envolvida nas intrigas da corte.

Maomao é observadora, astuta e muito consciente da própria posição, o que muitas vezes a leva a optar pelo silêncio mediante situações complicadas. Seu caráter é firme e ela não deseja uma atenção desnecessária, mas além de eventualmente se destacar pela natureza de suas tarefas, a proximidade com Jinshi—que é admirado e cobiçado por uma variedade de moradoras do palácio interno—é o que mais a coloca em evidência.

Apesar do ambiente opressor, Maomao encontra amigos e aliados no palácio, mas ainda assim a corte é um lugar traiçoeiro que esconde muitos segredos. Todas as mulheres ali presentes, independente de função ou classe social, enfrentam dificuldades e suas vidas dependem do papel que desempenham. Em “Diários de Uma Apotecária” a rivalidade feminina não é um mero elemento narrativo utilizado para criar tensão, e sim uma questão de sobrevivência.

Este volume de estreia adapta toda a primeira parte da primeira temporada do anime, mas oferece ao leitor uma perspectiva mais profunda e detalhada do universo e dos personagens, além de explorar de forma mais assertiva alguns pontos importantes, como a idade da imperatriz viúva e a verdadeira identidade de Jinshi. Apesar de eu já conhecer boa parte da história, seja por causa do anime ou do mangá, a leitura não deixou de capturar a minha atenção ou de me surpreender. 

Quanto aos detalhes da edição brasileira, creio que a editora Alt atendeu as expectativas do público entregando um material de qualidade, apesar de eu ter encontrado um pouco de dificuldade no manuseio por conta da rigidez da encadernação. O trabalho de tradução e revisão me pareceu excelente, embora não impecável, já que notei alguns pequenos erros textuais, mas nada que comprometesse a experiência de leitura ou compreensão. Além disso, o notável esforço e carinho da equipe com a obra e com o público—que está trabalhando com uma light novel japonesa pela primeira vez — fazem com que este lançamento seja, sem dúvida alguma, um divisor de águas na publicação de obras asiáticas no Brasil.


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