Tokiko é uma esposa dedicada que vive ao lado de seu marido, Sunaga, um ex-tenente que ficou gravemente ferido após uma missão na Sibéria. Sem braços, sem pernas, surdo e mudo, ele depende completamente dos cuidados da esposa, vivendo de forma semelhante a uma lagarta. Em meio a esse cenário sufocante, Tokiko se vê presa aos seus pensamentos mais sombrios e passa a questionar a vida medíocre que leva ao lado do marido.

Apesar de ser uma história curta, A Lagarta vai direto ao ponto e apresenta sua premissa logo nas primeiras páginas, concentrando seus esforços em construir e explorar os sentimentos de Tokiko durante esse período específico de sua vida. E é justamente nesse aspecto que a obra acerta em cheio.

Abandonada pela família e obrigada a conviver com um homem que, no passado, foi responsável por atitudes monstruosas, a protagonista se vê afogada em memórias traumáticas e em um fardo que se torna cada vez mais pesado. Dessa forma, o leitor consegue compreender com facilidade os conflitos e as angústias que consomem Tokiko ao longo da narrativa.

Em contrapartida, a obra também desenvolve de maneira satisfatória a figura de Sunaga, um homem que, após ter sido celebrado brevemente como herói nacional, acabou sendo esquecido pela sociedade. Agora, reduzido a uma condição de extrema dependência, ele também precisa lidar com a perda de sua dignidade e autonomia.

O que potencializa a história original de Edogawa Ranpo é, sem dúvida, a narrativa visual de Suehiro Maruo. Seu traço transmite com clareza o desgaste psicológico dos personagens e os momentos de delírio e loucura vivenciados por Tokiko, elevando a tensão da obra de forma gradual e impactante.
A edição da Pipoca & Nanquim mantém o padrão já conhecido da editora, trazendo capa cartão com sobrecapa, marcador de páginas como brinde e as páginas iniciais coloridas.

A Lagarta é mais um excelente acerto da Pipoca & Nanquim. Mesmo sendo uma obra curta, entrega uma narrativa intensa, perturbadora e extremamente eficaz, além de funcionar como uma ótima porta de entrada para quem deseja conhecer o estilo visual caótico e marcante de Suehiro Maruo. Recomendado.









