MB no Japão: Uma viagem entre Gundams, Mangás antigos e Izakayas

Por motivos óbvios, acredito que o Japão seja um destino que chame a atenção da maioria esmagadora dos leitores deste texto. Comigo não é diferente. Desde muito novo, mesmo antes de sequer saber o que são animes e mangás, sempre tive interesse na Terra do Sol Nascente. Em novembro de 2023 pude ir ao Japão pela primeira vez. O visto para o país, que era obrigatório até então, deixou de ser exigido em setembro daquele ano, graças a um acordo entre os governos dos países. Na ocasião fui à lugares históricos, pontos turísticos, visitei bares com amigos japoneses e até fui à Hiroshima.

Em 2025, tive a oportunidade de ir novamente ao Japão, e, desta vez, venho fazer algo que deveria ter feito na minha primeira viagem: compartilhar lugares e experiências interessantes que tive com a cultura pop japonesa. 

Durante meu período em Tóquio, fiquei hospedado no bairro de Ikebukuro, e, logo na estação de trem, me deparei com uma grande variedade de gashapons, que são aquelas máquinas onde você coloca uma quantia em dinheiro e recebe um item aleatório dentro de uma cápsula. Existem máquinas com prêmios de todos os tipos, como chaveiros, miniaturas, figures…E os temas vão desde coisas famosas como Dragon Ball, One Piece e Gundam, até itens nichados como trens, insetos, miniaturas de comida e a Estátua da Liberdade fazendo poses sensuais. Existem lojas inteiras dedicadas somente a essas máquinas.

Peguei o trem e fui em direção à Shibuya. Andando pelos arredores do famoso cruzamento, me deparei com um estabelecimento da Lawson, que é uma famosa rede de lojas de conveniência do Japão, fazendo divulgação do jogo Dragon Quest III, da Square Enix. Por toda a parte externa do estabelecimento, haviam imagens e artes do jogo, incluindo este belíssimo mural que mostra a arte do saudoso Akira Toriyama em toda a sua glória.

Em Shibuya também existe uma das várias Mugiwara Store que estão espalhadas pelo país. Essa loja é voltada exclusivamente à produtos licenciados de One Piece. E dentro dessa unidade, fui surpreendido ao ver um quadro desenhado e autografado pelo próprio Eiichiro Oda, autor do mangá. Prontamente chamei o atendente do local, perguntei se era real ou réplica, e quando veio a confirmação da autenticidade, saquei o telefone e pedi autorização para tirar uma foto (se for ao Japão, perceba que não são todos estabelecimentos que permitem que tiremos fotos dos produtos e/ou itens expostos). 

Também fui ao lugar que é parada obrigatória para todos que visitam o Japão e gostam de mangás, animes e eletrônicos: Akihabara. De fato, por ter se tornado um ponto turístico, existem várias lojas que são “tourist traps”, ou seja, estabelecimentos que se aproveitam do alto fluxo de visitantes desavisados e vendem produtos com preço acima do que é praticado comumente. Mas certamente existem lojas que praticam bons valores. Para figures e colecionáveis em geral, por exemplo, existe a Radio Kaikan, um prédio que abriga diversas lojas. Cada andar do prédio possui cerca três lojas, que são livres para precificar os produtos. Mas no geral, os valores são mais amigáveis. Lugares como Animate e Trader também são uma boa pedida.

Também rodei o bairro atrás de jogos, já que um amigo japonês conseguiu para mim uma unidade da versão multilingue do Nintendo Switch 2. Por ser meu primeiro console da empresa, aproveitei para comprar tanto jogos do Switch 2, quanto do console original. Optei por pegar a maioria dos games usados, já que o preço é muito mais em conta. Lojas como a BOOK OFF (uma das maiores redes de sebos do Japão, que vende inclusive mangás), a já citada Trader e a GEO possuem os valores mais competitivos. E para jogos recém-lançados e acessórios, como o Pro Controller, bolsa para transportar o console e película de vidro, fui até à Bic Camera, que é uma das maiores franquias de lojas de tecnologia do país. Lá é possível comprar peças para computador, jogos, consoles de várias marcas, celulares, câmeras, aparelhos de som e até doces. Uma grande vantagem é que quase todas essas lojas que citei são TAX FREE. Se você atingir um valor mínimo em suas compras (que geralmente é em torno dos 5000 ienes) e for um turista estrangeiro, é possível pagar apenas o valor do produto, sem os impostos locais.

Uma das minhas lojas favoritas no Japão é a Mandarake. Lá, são vendidos mangás antigos e recentes, edições raras e não tão raras de revistas semanais/mensais, artbooks, figures, vinis, CDs, brinquedos, colecionáveis e tudo que tem relação com o universo pop japonês. Em 2023, fui à unidade de Akihabara, que, até então, era a maior que eu tinha conhecido, contando com dois prédios inteiros. Mas dessa vez conheci uma ainda maior, em Nakano. Porém irei falar dela em breve. Apenas não podia deixar de citar que a unidade de Akihabara também vale muito a pena visitar. Também recomendo a loja Tamashii Nations, que é voltada exclusivamente para Figures licenciados pela Bandai. Lá dá para encontrar bonecos de Dragon Ball, One Piece, Cavaleiros do Zodíaco e robôs, muitos robôs, principalmente da série Gundam. 

No fim de semana, um amigo japonês me convidou para ir até Nakano, um distrito de Tóquio. Como chegamos na parte da manhã, e a maioria das lojas da galeria Nakano Broadway só abrem ao meio dia, fomos até à Hardcore Chocolate, uma loja que vende apenas camisas. Como o próprio slogan do local faz questão de ressaltar, o foco lá são os “Cult Classics”. Mangás antigos e do ‘lado b’, filmes de kung-fu e de terror japonês, lutadores de wrestling, séries de tokusatsu e animes clássicos viram estampas nos produtos do lugar. Apesar de não ser um local espaçoso, entre os estreitos corredores estão um enorme número de produtos. Desta vez, comprei uma camisa do mangá Ichi the Killer, de Hideo Yamamoto e em 2023, comprei uma do Jagi, de Hokuto no Ken. 

Ao que tudo indica, de tempos em tempos eles lançam novas coleções e descontinuam as antigas, já que os produtos que vi neste ano eram diferentes dos que estavam lá quando fui há quase dois anos.

Apesar de serem roupas meio caras (cerca de R$120,00 a unidade), o material é de boa qualidade. Ao vestir dá para perceber que é algo feito para durar. Inclusive grande parte dos produtos possuem estampas na parte da frente e nas costas. A Hardcore Chocolate possui uma unidade em Tóquio e outra em Osaka. 

Após isso fomos para Nakano Broadway, que nada mais é que uma grande galeria com diversas lojas e até mesmo um mercado de legumes e peixes no subsolo. Mas o meu interesse lá era outro. Lembram que eu disse que até então a maior Mandarake que eu tinha visitado era a de Akihabara? Pois então, a de Nakano é maior…Muito maior. Apesar de não ser um prédio propriamente dito, quase todas as lojas do local pertencem à Mandarake. Além dos tradicionais mangás, existem lojas específicas para itens como originais de mangakás, edições raras de revistas, células de animação, bonecos, discos e até pôsteres de filmes. E como eu disse, não são seções dentro de uma loja, são lojas próprias para cada um desses itens. É simplesmente absurdo! Os preços variam de acordo com o item, mas eu, por exemplo, comprei um mangá em bom estado por cerca de R$3,50. 

Em uma das lojas pude encontrar um lugar especializado em Sala de Aula a Deriva, de Kazuo Umezu. Mangá clássico de 1972 e que atualmente está sendo publicado no Brasil pela editora Devir. São vendidos produtos como mousepads, pins, adesivos e camisetas. A decoração do lugar deixa qualquer um que não conheça a obra curioso para saber do que se trata. 

Saímos da galeria e fomos procurar um izakaya (bar no estilo japonês). No meio do caminho e completamente por acaso, nos deparamos com um um bar que tinha um banco do lado de fora, com nada menos que uma estátua do Joe, de Ashita no Joe. Quem conhece a história, sabe o peso dessa cena icônica.

Já dentro do izakaya, algo inusitado aconteceu. Enquanto saboreava uns aperitivos e aguardava a bebida chegar, ouvi um japonês que estava no balcão conversando com o atendente do lugar e falando “Otokojoku” e “Rokudenashi Blues”. Na hora, minha atenção foi totalmente direcionada ao assunto deles, já que ambos se tratam de shounens antigos. Por coincidência, mais cedo, na Mandarake, eu tinha comprado o mangá Shiba Inu, de Masanori Morita, que é o mesmo autor de Rokudenashi Blues. Não me contive e fui até o balcão entrar na conversa e mostrar a obra. Meu nível de japonês não é o mais alto, mas consegui me comunicar bem, e fui muito bem recebido. Eles não conheciam Shiba Inu e ficaram surpresos por eu conhecer. Conversamos brevemente sobre mangás antigos como Fênix, Devilman e clássicos da Jump. Tenho tatuagens de Dragon Ball no braço direito e isso também foi motivo para ficarem surpresos e pedirem para vê-las. Ao se despedir de mim, esse japonês deu dois tapinhas no meu ombro e disse “obrigado”, em português mesmo. Foi um papo rápido, mas muito agradável.

Quioto é conhecida mundialmente pela rica história e pelos inúmeros templos, além de possuir paisagens naturais deslumbrantes, mas a cidade abriga um tesouro para os fãs de mangás: o Kyoto International Manga Museum. Em 2023, visitei o local e fiquei impressionado com a quantidade de material disponível lá. Obras de todas as eras, de praticamente todos os autores; desenhos exclusivos e uma biblioteca imensa acessível ao público. Tudo isso por um preço irrisório, menos de R$20,00. Porém, na ocasião eu não sabia que ao lado do museu existe uma cafeteria cujas paredes são todas preenchidas com autógrafos e desenhos feitos por mangakás famosos como Naoki Urasawa, Joji Morikawa, Kazuhiro Fujita, Monkey Punch, Takao Saito, Yusuke Murata, entre muitos outros. Ao descobrir isso fiquei em choque por ter passado praticamente dentro do lugar e não ter visto. Mas dessa vez, consegui remediar meu erro e visitei o estabelecimento.

Comparado a outros lugares semelhantes, os preços não são tão amigáveis. Mas é compreensível, já que não é todo dia que podemos tomar um café (ou saborear um sorvete, como eu fiz) em um lugar que foi ilustrado por alguns dos maiores mangakás do Japão. Vale muito a pena visitar. Conversei com os atendentes e infelizmente o meu autor favorito, Akira Toriyama, nunca visitou o local. Outros nomes importantes como Osamu Tezuka e Shotaro Ishinomori também não estão presentes, já que esses faleceram antes da inauguração da cafeteria.

Ao chegar em Osaka, logo ao lado da estação principal, existe um prédio que abriga algumas lojas interessantes como a Mugiwara Store, Capcom Store & Cafe e Pokémon Center. A Mugiwara Store é bem parecida com as outras espalhadas pelo Japão. É legal, mas nada diferente. A loja da Capcom também é interessante. Para quem gosta dos jogos da companhia, como Resident Evil, Street Fighter e Monster Hunter, por exemplo, existem opções de lembranças e colecionáveis, porém não vi jogos propriamente ditos à venda.

Eu não sou o maior fã de Pokémon do mundo, então não entrei na loja pois simplesmente havia uma fila colossal. Não consegui saber o motivo da fila e nem ver os demais produtos do lugar. A única coisa que consegui ver foi a área dedicada ao TCG (jogo de cartas) de Pokémon e várias pelúcias. 

Logo ao lado fica a Nintendo Store, e, apesar de não vender consoles, são vendidos uma variedade de produtos licenciados, como camisas, canecas, chaveiros, pôsteres, figures e uma quantidade absurda de Amiibos, que são aqueles “bonequinhos” que interagem com os jogos da empresa por meio de um leitor de NFC nativo dos controles e consoles Nintendo. O Switch 2 também estava à disposição dos visitantes para testes. Cada pessoa podia jogar por 10 minutos enquanto era acompanhada e orientada por funcionários do local. Apesar de não conseguir se comunicar em inglês, o rapaz que me atendeu foi muito gentil e atencioso. Vale a pena visitar, principalmente se você é fã dessa empresa icônica. 

Por fim, já em outro andar havia uma variedade de produtos de Gundam (eu já disse que os japoneses respiram Gundam?) como biscoitos, colecionáveis e até mesmo uma exposição com vários robôs icônicos da série. No mesmo andar também havia a Godzilla Store (algo que eu nem sabia que existia). Apesar de algumas lembrancinhas mais comuns, o que mais chamava atenção eram as figures e a impressionante estátua do kaiju mais famoso do mundo. 

Em resumo, esses foram os lugares “nerds” que eu visitei durante a minha estadia de duas semanas no Japão. Houveram vários outros lugares e tirei mais de 300 fotos, então se eu fosse mostrar e descrever tudo o que vi, daria para fazer um livro. O Japão é um destino fantástico! Não apenas para nós que gostamos das coisas que falei nesse texto, mas por causa da sua cultura, paisagens naturais e história. É um país que vai muito, mas muito além de animes e mangás. 

Como turista, preciso deixar claro que fui muito bem recebido e tratado pela população local. Os japoneses não são tão sérios e frios como muitas vezes ouvimos falar aqui. O que pode passar essa sensação para alguns é algo muito simples: cultura. Não há povo no mundo como os brasileiros, o que não significa que outros povos não sejam receptivos à sua maneira. Contudo, faz-se necessário entender e respeitar as regras e os bons modos do país. Tente se comunicar (mesmo que o mínimo) em japonês, siga as regras, demonstre interesse nas coisas e entenda que você está no país deles, não o contrário. Se fizer isso, pode ter certeza que terá uma experiência inesquecível. Não sei quando será possível, mas definitivamente voltarei lá.

Galeria de fotos

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima