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Toda vez que leio Ashita no Joe, fico pensando na dificuldade em conseguir fazer com que as lutas sejam interessantes para o leitor. Alguns cuidados precisam ser tomados, como evitar repetição de coreografias, saber desenhar o impacto dos golpes e principalmente, construir uma narrativa durante a história para que cada luta em cima do ringue tenha um peso e passe a sensação de algo importante.

O fato do roteirista ter consciência disso, transforma o mangá em uma obra com uma profundidade absurda. No início da edição, vemos Joe perambulando pelas ruas, sujo e sem ânimo, já que se encontra abalado com o trágico desfecho de sua luta contra Toru Rikiishi. Nesse momento, ele acaba trombando com Wolf Kanagushi, que teve sua mandíbula quebrada por Joe em uma luta, fazendo com que se afastasse definitivamente do boxe. O cuidado do autor em trazer novamente esse personagem para mostrar a decadência dele após a forçada saída dos ringues. São detalhes assim que dão vida e características ao universo da obra.

O estado mental do protagonista também reflete diretamente no desempenho dele durante os combates. Ao perceberem isso, vários donos de academias rivais se unem em um complô para tirar Joe dos holofotes de uma vez por todas. Tudo isso é trabalhado em paralelo ao desenvolvimento de Nishi, Tange, Noriko e Yoko.
Cada vez mais consigo compreender o porquê de Ashita no Joe ser um clássico. A história reflete um panorama histórico e político muito específico do Japão, sendo praticamente um slice of life ao mesmo tempo que é um quadrinho de esporte. E que baita quadrinho de esporte!

Mesmo com os elementos dramáticos e narrativos que citei, não há uma única luta desinteressante. Os embates são emocionantes, brutais e cheios de surpresas. Não há previsibilidade nas lutas e, muitas vezes, as atitudes do Joe causam repulsa no leitor.
A série continua numa crescente absurda. Aos poucos tem se tornado uma das obras mais marcantes que já li. Personagens humanos, dramas plausíveis e boa narrativa fazem Ashita no Joe estar à frente de muitas obras contemporâneas tidas como complexas narrativamente.











