“Harada”, um nome que por si só é um alerta de gatilho. Há quem ame, há quem odeie, mas seja como for, não dá para negar seu impacto e relevância. Uma assinatura que acende a expectativa do desconforto, já que esta subverte como ninguém a ideia de que BL é sobre romance, entregando narrativas complexas, intensas e muitas vezes, incômodas.

Em “A Canção de Yoru e Asa”, seu primeiro trabalho publicado no Brasil pela editora NewPOP, acompanhamos o jovem músico Yoru, um talento promissor no circuito de bandas indie, que surpreende a todos ao assumir o posto de baixista suporte em uma banda considerada “inferior” ao seu grupo anterior, onde era vocalista e estrela. O vocalista da nova banda de Yoru é Asaichi, um sujeito mediano, que não compõe melodias e nem toca instrumentos, mas que de alguma forma conseguiu se tornar razoavelmente popular. Sua única motivação é conseguir mulheres de um jeito fácil, e talvez meio questionável.
Asa constantemente organiza festas privadas com fãs da banda, sempre com um objetivo muito claro. Porém, na primeira festa com participação de Yoru, ocorre um incidente que revela as verdadeiras intenções de Yoru e gera em um conflito entre ele e Asa.

Shiori, a mulher por quem Asa está interessado, quer Yoru, e Yoru quer Asa.
Shiori é uma peça central na trama. Ao usar Asa para se aproximar de Yoru, cria uma tensão e desencadeia uma série de eventos catastróficos, já que seu irmão Iori, que sempre a acompanha nos shows, é um mafioso que desenvolve uma certa obsessão por Yoru.
Asaichi é construído para ser detestável. Ciente de sua mediocridade, ele se sente ameaçado por Yoru, a quem constantemente humilha. Ele faz questão de verbalizar todo seu preconceito das formas mais ofensivas e degradantes, enquanto usa Yoru como bem entende. A verdade é que ele recusa admitir que deseja um homem e é incapaz de gerenciar os próprios sentimentos, recorrendo ao escárnio e á violência.

Yoru, por sua vez, tem a personalidade de uma porta. O que ele tem de talento e beleza, lhe falta em carisma e atitude. Enquanto no palco ele é um deus, fora dali sua vida gira ao redor de Asa e ele se submete a qualquer coisa para estar próximo dele. Ele se encolhe e se anula para caber em um espaço que não o acolhe.
A virada de chave vem a partir de uma situação desastrosa. Cada vez mais frustrado, Asa desconta sua raiva em Shirori e sofre as consequências.
Fragilizado, ele repensa sua relação com Yoru. É uma “redenção” dolorosa, que não acontece através do amor e sim do trauma.
A narrativa, linguagem e recursos visuais desse mangá são propositalmente feitos para incomodar e existem conexões demais com a realidade para serem ignoradas.

Harada não hesita em chocar o leitor, ao mesmo tempo que nos conduz por uma série de emoções complexas, e muitas vezes desagradáveis, em um único volume. O que eu mais admiro em suas obras, é a ousadia. Não esperem dela um desenvolvimento romântico tradicional, no qual o amor vence todos os obstáculos. Mesmo sem um desfecho trágico, muito do que é problemático e disfuncional permanece.
Adepta do “meriba” (merry bad end- expressão que significa “final feliz ruim” em tradução literal), a mangaká encerra a história com o que pode ser considerado um “final feliz” para os personagens, porque o leitor provavelmente saiu um pouco traumatizado. É uma leitura desconfortável, mas para aqueles que aguentarem, vale cada página.











